Nova escuta: nutrição e yoga no processo pós-bariátrico
O que realmente muda no corpo após a cirurgia bariátrica? Uma conversa sobre digestão, dor crônica, Síndrome de Ehlers-Danlos e como o yoga apoia esse processo de dentro pra fora.
Ana Paula Fuchs e Amanda Gattiboni
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Esse post começou de uma conversa com a Ana Paula Fuchs, amiga e aluna de yoga. Nutricionista especialista em bariátrica, ela mesma passou pela cirurgia. Ou seja: conhece o processo de dentro e de fora ao mesmo tempo.
A gente foi trocando ideia e percebemos que o olhar das duas práticas, a nutrição e o yoga, converge num ponto muito específico: o corpo pós-bariátrico precisa de mais do que protocolo. Precisa de escuta.
O que muda no corpo depois da cirurgia (e que pouca gente fala)
A cirurgia bariátrica muda a anatomia do sistema digestivo de forma significativa. E com essa mudança vêm adaptações que nem sempre são discutidas com clareza antes do procedimento.
“As complicações pós-cirúrgicas existem e são possíveis de acontecer. Como existe uma mudança anatômica muito grande, a digestão fica comprometida, obrigatoriamente. Alguns mais, outros menos. Mas certamente irá acontecer.”
Ana Paula, nutricionista especialista em bariátrica
Fraqueza, queda de cabelo, gases, alterações intestinais. São queixas frequentes e têm uma razão fisiológica clara: o sítio de absorção de nutrientes é reduzido, e a velocidade da passagem dos alimentos muda completamente. Isso cria as condições para uma disbiose crônica, um desequilíbrio da microbiota que precisa de acompanhamento contínuo.
“Precisamos tratar de forma crônica. A base do tratamento nutricional pós-bariátrico é uma dieta de baixa e média fermentação para sempre. Eventualmente com pequenas concessões, mas sem abrir mão desse princípio.”
Do ponto de vista do yoga, esses sintomas também falam de um sistema nervoso que ainda está se reorganizando. Um corpo que mudou rápido e que precisa de tempo e de presença para integrar o que aconteceu.
Síndrome de Ehlers-Danlos e o que muitos diagnósticos escondem
Tem um grupo de pacientes que chega ao acompanhamento pós-bariátrico com um diagnóstico que não conta a história completa. A Síndrome de Ehlers-Danlos aparece com muito mais frequência do que se imagina.
“Muitos pacientes que recebem o diagnóstico de fibromialgia, quando investigados com mais profundidade, revelam que é, na verdade, muito provavelmente SED. Em função da gordofobia que nos cerca, muitos profissionais se limitam apenas ao peso do paciente, sem examinar adequadamente.”
A SED é uma síndrome genética que afeta a produção de colágeno. No contexto pós-bariátrico, isso traz riscos específicos que precisam ser considerados, incluindo um cuidado redobrado com a alimentação e com a atividade física.
"A dieta de baixa fermentação se torna ainda mais importante. Existe um risco aumentado de intuscepção, condição em que o intestino entra para dentro de si mesmo, podendo levar a uma obstrução que precisa de cirurgia. Além disso, acompanhamento com cardiologista, dentista e fisioterapeuta é fundamental para evitar lesões articulares."
O que o yoga observa: digestão, sistema nervoso e presença
No yoga e no Ayurveda, existe o conceito de agni, o fogo digestivo. Não é só o que transforma o alimento em energia, mas o princípio que organiza a capacidade do corpo de processar e integrar.
Quando o sistema nervoso está em estado de alerta crônico, o agni enfraquece. E comer com pressa, sob tensão ou distração, ativa o sistema simpático antes mesmo do alimento ser processado. Isso agrava exatamente os sintomas mais comuns do pós-bariátrico: gases, distensão, desconforto.
Práticas simples como a respiração abdominal consciente e um momento de pausa antes de comer criam as condições para que a digestão aconteça de forma mais tranquila. Não como substituição ao acompanhamento nutricional, mas como suporte ao que ele propõe.
Ouça o seu corpo
Quando perguntei à Ana Paula o que ela diria para alguém que acabou de passar pela cirurgia, a resposta foi curta e direta: ouça o seu corpo.
Essa frase resume muito do que o yoga propõe também.
Ninguém conhece o seu corpo melhor do que você. A ciência orienta, a nutrição organiza, a medicina trata. Mas tudo parte de uma capacidade que precisa ser cultivada: a de perceber. Sentir o que nutre e o que cansa. O que fortalece e o que drena.
O yoga é uma prática que treina exatamente isso. E quando você começa a estar presente de verdade, as escolhas mudam. Não porque existe uma lista de restrições, mas porque você passa a sentir o que faz sentido para si. Isso não é um mundo de proibições. É um mundo de consciência.
Entretanto, preciso ser honesta sobre uma coisa: o (re)começo pode ser desconfortável. Não porque dói, mas porque convida a olhar para coisas que às vezes preferimos não ver. E é justamente aí que está a prática. Na constância, no retorno regular a esse estado de presença, que os benefícios aparecem. De maneira sutil, a percepção de uma dor que diminui, uma escolha que muda, uma noite de sono diferente.
A gente trata no sutil para que se manifeste no corpo físico.
Uma mensagem que ficou
Tem uma coisa que a Ana Paula disse que eu quero deixar aqui, porque acho que vai além do contexto da bariátrica:
“Estética é importante, mas não é tudo. Não coloque sua saúde em risco por um padrão que muitas vezes é inalcançável.”
Nutrição e yoga chegam no mesmo ponto por caminhos diferentes: o corpo não precisa apenas do que é tecnicamente correto. Ele precisa de presença, de ritmo, de uma relação que seja menos de cobrança e mais de escuta.
Se você está num processo pós-bariátrico, ou em qualquer momento em que o corpo está pedindo atenção: comece por aí. Não pelo que parece certo de fora. Pelo que você realmente sente por dentro. Ouça o seu corpo. Ele já sabe mais do que imagina.
Com carinho,
Amanda Gattiboni
Com colaboração de Ana Paula Fuchs, nutricionista especialista em bariátrica
