Multifacetas: o que o yoga ensina sobre ser inteira num mundo que pede especialização
Ser múltipla não é contradição. É natureza. Entenda o que o conceito de Svabhava no yoga tem a dizer sobre identidade, multiplicidade e o fio que conecta tudo que você é.
BRANDINGYOGA
4 min read
Existe uma pergunta que aparece com frequência nas conversas que tenho com alunas e mentoradas. Ela vem de formas diferentes, mas a essência é sempre a mesma: "Como eu explico o que eu faço quando sou tantas coisas ao mesmo tempo?"
Terapeuta e artista. Mãe e criadora de conteúdo. Profissional de uma área e estudante de outra completamente diferente e por aí vai.
A sensação, muitas vezes (eu sei!), é de contradição. Ou de dispersão, de que ser múltipla é um problema a ser resolvido e que a solução é escolher uma coisa só, se especializar, se encaixar num nicho.
Mas e se não for?
Slash careers: quando a multiplicidade tem nome
Em 2007, a jornalista e escritora Marci Alboher lançou o livro One Person / Multiple Careers, onde apresentou um termo que me chamou atenção: slash career, a carreira com barra. A ideia é simples e ao mesmo tempo revolucionária: algumas pessoas não têm uma profissão. Têm várias. E a barra entre elas não é uma divisão, é uma conexão.
Professora/escritora. Terapeuta/funcionária pública. Designer/artesã.
Quando li esse livro, algo finalmente se encaixou (começando já pelo título). Não porque trouxe uma solução nova, mas porque deu nome a algo que muita gente já vivia sem conseguir explicar e, principalmente, sem conseguir aceitar.
Porque o problema raramente é a multiplicidade em si. O problema é a culpa que vem junto. A sensação de que ser muita coisa significa não ser suficiente em nenhuma.
O que o mundo pede e o que a gente é
Vivemos num tempo que valoriza o foco estreito, específico. O especialista, o nicho. A identidade clara e comunicável em uma linha em rede social.
E tem valor nisso, não vou negar. Clareza comunica. Especialização aprofunda.
Mas existe um tipo de pessoa para quem essa equação nunca fechou completamente. Que se aprofunda em várias direções ao mesmo tempo, não por falta de foco, mas porque é assim que sua natureza funciona. Que se nutre de conexões entre áreas diferentes. Que pensa melhor quando está em movimento entre mundos.
Para essa pessoa, e talvez você seja uma delas, assim como eu, a questão não é aprender a se especializar. É aprender a se reconhecer inteira mesmo vivendo diferentes recortes na rotina.
Svabhava: a natureza própria no yoga
É aqui que o Yoga entra, mais uma vez.
Existe um conceito chamado Svabhava, do sânscrito, sva (próprio) + bhava (ser, natureza, essência). Svabhava é a natureza própria de cada ser. Aquilo que você é no nível mais fundamental, antes dos papéis, antes das funções, antes das expectativas externas.
Como um fio que atravessa tudo, sabe?
Bhagavad Gita fala diretamente sobre isso. Krishna orienta Arjuna a agir de acordo com sua própria natureza mesmo quando isso parece complexo ou difícil de explicar. A mensagem não é que você deve ser simples. É que você deve ser verdadeiro.
E ser verdadeiro, para quem é múltiplo, significa reconhecer a multiplicidade como parte da sua natureza, não como desvio dela.
Como isso ressoa por aí?
As facetas te alimentam. Ou te esgotam.
Aqui está o ponto que mais importa na prática: as facetas de uma vida multifacetada podem se nutrir mutuamente ou podem se esgotar mutuamente. A diferença está em como elas se relacionam.
Quando cada faceta puxa em uma direção diferente, sem nenhum fio conectando, o resultado é dispersão, cansaço. A sensação de estar sempre começando do zero em cada área da vida.
Mas quando existe uma essência clara, as facetas começam a se nutrir. O que você aprende numa área ilumina outra. O que você vive num papel enriquece o seguinte. A professora de yoga se torna uma comunicadora melhor. A empreendedora se torna uma praticante mais presente.
Não porque as áreas são iguais. Mas porque quem as vive é a mesma pessoa, com a mesma essência, com o mesmo fio atravessando tudo. Entende?
Como o yoga me ensinou a encontrar esse fio
A prática de yoga tem uma qualidade especial: ela te devolve a você mesma.
Não a uma versão ideal ou performática. A você como você é. Com seus ritmos, seus limites, suas contradições e sua profundidade. Natural e perfeita.
E é exatamente isso que a prática constante revela sobre a vida multifacetada: não existe contradição entre as partes quando você conhece o centro. A contradição aparece quando o centro está perdido.
Quando sei quem sou, o que me move, o que me nutre, o que compromete minha energia, consigo habitar cada faceta da minha vida com mais presença e menos culpa. Consigo reconhecer quando uma área está drenando outra, e fazer ajustes antes do esgotamento.
Essa é a prática. No tapetinho e em toda vida.
Reconhecer-se inteira
Ser multifacetada não é um problema de branding. Não é uma questão de comunicação ou de posicionamento de mercado. É uma questão de identidade.
E identidade não se resolve de fora pra dentro. Se reconhece de dentro pra fora.
O primeiro passo não é encontrar a forma certa de explicar o que você faz. É entender o que conecta tudo que você faz. Qual é o fio? Qual é o svabhava que atravessa a professora, a empreendedora, a criadora, a mulher?
Quando você encontra esse fio, a comunicação vem naturalmente. A clareza vem. Não porque você se reduziu a uma coisa só, mas porque você se reconheceu inteira.
Uma pergunta pra levar
Se você se reconhece nesse texto, se a palavra multifacetada soa mais como descrição do que como problema, eu te deixo com uma pergunta:
O que conecta todas as coisas que você é?
Deixe ressoar.
Com carinho,
Amanda.
Palavras-chave: multifacetas, slash career, svabhava, yoga e vida, identidade, profissional multifacetado, yoga filosofia, ser múltipla, natureza própria, hatha yoga
